Abraço Poliglota

Por vezes escuto no quarto um escuro muito vazio, meu amor. O corpo diz na surdina, cravado de suspiros, que você me faz falta e a noite vai crescendo, movediça por entre os lençóis que não têm o peso que preciso.
Nesses instantes de saudade, (haverá instantes em que não há saudades?), tudo me escapa e não sou uma alquimista de pólos inversos em cujas mãos nada reluz.

- Amor, o vazio é tão gigante que parece que vai me engolir nessa cama desfeita onde se aninha a vontade de ser contrabandeada num negócio de beijos e abraços.
Sinto saudades do teu abraço tenro, poliglota e com todas as certezas do tato, que adivinho e com o qual sonho.

Andanças


Deixei meus arrependimentos para trás,
Segui caminho,
Desci as escadas,
Andei pela rua,
Tomei o metrô,
Depois da baldeação,
Peguei o ônibus,
Peguei gripe,
Peguei o jornal,
Peguei um café,
Segui em frente
Mas mesmo assim
Minhas pegadas me seguiram.

Patética

Uma sonata tão patética como a minha existência. Lembro-me de algo que li não sei onde nem quando, algo mais ou menos assim: "A única coisa a qual o homem realmente tem certeza é que a vida não tem sentido." E eu concordo. Às vezes, é estranho, fico sentindo saudades das coisas que ainda não fiz. Patética como sou, não há. A valsa que dancei, ou melhor, que imaginei ter dançado não foi suficiente. Morri antes de terminá-la. Como existir? Quais foram os erros se é que existiram? Talvez tenha saudade de viver o que ainda por vivi.

Conjunção





Entre eu E você
foi a conjunção que
caiu em desuso...

Vamos ver um filme do Godard?

Vamos ver um filme do Godard?
e se achar chato,
ficamos de bobeira na cama
lendo um livro do Bukowski,
ou fazendo uma farra à dois
para depois se deixar ficar
feito marolas ao sabor de vento
braços em abraços que abrigam.

Quer casar comigo?
Quem sabe a gente se encontre...

Preciso estar só

para ESTAR junto
é preciso estar SÓ.

É preciso respeitar
o contorno do próximo,
é saber voar sozinho.

Não existem sentimentos,
bons ou ruins,
sem a existência
do outro,
sem o seu contato.

Passar pela vida sem se permitir
um relacionamento próximo com
o outro, é não crescer, não evoluir,
não se transformar...

Festa

gostar é FESTEJAR
nada de conservas
USAR E FESTEJAR...
o amor VIVE-SE,
não se PRENDE...

As minhas saudades são teimosas


As minhas saudades são teimosas,
Insistem e persistem
Nas horas próprias e impróprias

Chego a conclusão que o amor é repetitivo
E repetente em minha vida
Repete sempre a saudade...

Por que é que quando estamos tristes
Não usamos pontos de exclamação?
Por que sinto essa saudade de mim?

Ouvir Estrelas

Ora ( direis ) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouví-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas

Olavo Bilac

“Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu
Brilho eterno da mente sem lembrança!”.
Alexandre Pope

Outros Lugares

Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. No entanto isso é recorrente em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar.

Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos.

O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas.
Não é para todos suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto e ideias simples a rondarem o teto da imaginação.
 - Com que sonhas? Confusão.
 - O que sentes agora? Confusão.

 Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas.
 Os dias de chuva e as saudades escondidas em flashes fotográficos.

Meu Amado

Por entre as cores da paisagem
abaixo da linha do sopro
sempre acima de mim 
da minha escolha
e do teu epicentro
Não posso preencher o espaço
em que te esparramas 

e que nunca esteve vago.

Beijos de Chá de Camomila



Não quero um amor que me desatine ou me largue sozinha num planalto.
Não quero um homem com olhar de falsas modéstias,
nem quero palavras doces amaciadas ou beijos de chá de camomila.
Quero ficar embasbacada com um porte firme na lapela da alma,
duas mãos de incêndio e uma boca sempre pronta a me escrutinar a pele.
Quero uma epifania, um monumento de boas memórias e muitas histórias subcutâneas.

Tela: O Beijo - Klimt




Sonhos


Ando com tantos pensamentos que me FALTAM dedos para verbalizá-los
por isso GOSTO cada vez mais dos meus
SoNhOs.

Azul

Um dia de inverno sem asas,
sonhei com o AZUL.
AZUL que me incendiou com o seu olhar de artista.
Agora trago o céu,
os amigos e as nuvens nas persianas do tempo,
onde há luz AZUL
e tragos de sol
(e vento, gosto do vento).

Descomunal

"É para lá que eu vou

Para além da orelha existe um tom, à extremidade do olhar um aspecto, às
pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito da alegria uma outra alegria, à ponta da espeda a magia - é para lá que eu vou. Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. É para lá que eu vou.

Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que vou. E de mim saio pra ver. Ver o quê? ver o que existe.

Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio. Não sei sobre o que estou falando. Estou falando do nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome. É para o meu pobre nome que vou.

E de lá, volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes tã oescuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.

À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.

Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou.
E me transmuto.Oh cachorro, cadê tua alma? estou à beira de teu corpo? Eu estou a beira de meu corpo. E feneço lentamente.

Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós."(Clarice Lispector)

Toque


Tenro,
cortês,
atencioso,
ora afável,
ora obsequioso...

Suave,
refinado,
sutilmente delicado,
agradável ao toque,
infinitas possibilidades...



Qual o teu Sentido?



Procuro,
Não encontro,
A clareza é impenetrável.

Sinto um Eu anunciado.
Não te preocupes,
Não quero te possuir.
Não temas.
Por enquanto,
Alço-me a tua superfície
Que já é perfume.

Mais um bom momento
Para iluminar estrelas.

Receita

Os mesmos ingredientes
Em pratos diferentes,
3 gotas de limão,
1 colher de (sopa) de mel
2 paus de canela
3 cravos
raspas de laranja

Modo de Preparar

Fogo brando
Mexer delicadamente
Deixe amornar
Em temperatura ambiente,
Prove meu gosto
E colha meus beijos

Sirva-se à vontade...

Rota





Quando a língua passa
pela rota do desejo,
louco e desvairado em urgências.
que entendimento pode haver
entre bichos da mesma fala
mergulhados no mesmo tempero,
em aflição pelas mesmas dores,
perdidos nas mesmas trilhas de solidão,
em conflito voluntário?

Que entendimento pode haver,
além do desejo lancinante e brutal
traduzido na linguagem do sexo?
Melhor calar e sentir...

É só desencontro no final,
como rios sinuosos
aliviando-se em afluentes...

Não pisar com os dois pés no presente,
manter um pé no passado
e não esquecer que seduziu o tempo
como me seduzia,
conduzindo e me adivinhando sem bússola...

Só com a madrugada



Foi assim:
Você partiu sem se despedir,
E sem me despir do nosso mundo.

Agora,
deixa ficar comigo a madrugada...

Ninho



Sinto saudades do barulho dos meus filhos,
da desordem do meu lar,
das implicâncias do meu pai,
das asas da minha mãe.

Sinto falta do meu ninho...

Respostas

Respostas que não satisfazem
perguntas deixadas para depois.
O silêncio espia
e tudo são cansaços
Um suspiro,
quem sabe de amor...

Não encontro os caminhos
Por onde eu possa me perder.
Seria uma boa desculpa
para não voltar...

Nos olhos,
a saudade eterna dos teus,
A boca advinha o beijo
que não aconteceu ,
e anda seca...

Esse olhar para nada,
O pensamento vazio,
Peito apertado,
Engasgar respostas.

Ouvindo: Refrão de Bolero

Intrusa

Desgarrada das feridas abertas,
espalho-me por todo o texto.
Escrever é dor..

Eu mesma não sou eu.
Sou uma diferente,
Uma ausente de mim mesma,
esquecida dentro do espaço inconsciente.
que fica entre a razão e a loucura.

Sangrando


Minha alma que andava sem alento,
desorientada,
perdida...

Não sabia dos seus erros,
não sabia dos porquês
e do ódio,
Não sabia...

Sentia saudades,
sentia afeto,
sentia culpa por algumas mentiras...

Precisei me jogar a teus pés
para entender o que estava errado.
Minha alma se despede de cara limpa
e meus versos de alma lavada.

Não sinto mais a boca seca,
a rima triste,
e nem sinto vazios

Hoje eu me despeço de ti
e volto a estar inteira.
E vou por ai,
Feito uma saudade
que não sangrará com a partida...

Não espero pela tua volta
Porque fui eu que te mandei embora
E não me arrependo.

A dor que agora sangro?

- Vai passar. Já passou...

16


As rosas que roubaste
Para me ofertar,
Talvez inspirado numa música
De José Cid,
Ficaram no passado...
Não quero mais rosas
Em minha vida,
Quero antes as violetas
Que me lembram as flores
Que nasciam pelos caminhos
Por onde passavas para me encontrar...

Toada


Som:
Quando voz.
Tom:
Quando inflexão.
Quando sensação profunda:
Rumor
Quando sussuro:
Melopeia
Quando suave pronúncia:
Maneira
Quando gestos:
Modo
Quando forma de dizer o que calo:
Gosto
Quando sinto e não confesso:
Entoação
Quando poesia:
Sentir.
Canto:
Quando a poesia torna-se o chamamento.

Amor abreviado

Esperava demais,
dava o suficiente.
Amor abreviado,
justificado em abandono.

Retocou o batom,
coração aberto e
licenciado para o amor.

Urgências



Um traço impreciso,
As palavras em motim
Os corpos são escombros
Após o coito
Sem a necessidade
Das palavras inúteis

Amor de urgências
Fome de viver
Medo do nada
Que nos aprisiona
Em nosso amor
Cada vez mais ontem
Quero ser apenas
O que sou,
Ainda que em partes,
em momentos adjetivos
que edificam meu interior.

Vale



Foto Montagem: Jotta Mar

Gestos

Esse homem me chegou,
Delicadamente.

Chegou sem pedidos na bagagem,
Mansamente.

Chegou com as mãos em abandono,
Cheio de silêncios e sentenças já cumpridas,
Calmamente..

E como eu, distraído que é,
Em meio ao riso e o fazer rir,
Foi entrando em minha morada,
Sem pedir licença,
Cheio de paixão
Suavemente.

Quando demos conta
Já éramos a soma indivsivel de todos os gestos,
De todos os ais,
De todas as fomes cheias de pressas,
Ardentemente

Fugaz


Mesmo deposto o beijo
Nos lábios sem descanso,
Debaixo dos lençóis
Das nossas manhãs,
Guardo as lembranças
Com sabor de hoje.

És beijo perdido no tempo,
Fugaz...

Germinada



A quem me viu
Não sei voltar,
Só me encontro
Quando me perco
E a quem me advinha
Eu me devolvo inteira,
Germinada...




Tela: Madonna, Munch

Doçura



Aqui posso estar segura e leve no silêncio
entre calmas formas, raízes lentas, cabelos em desalinho
e te bebo longamente num ritimo perfeito.
Então que seja doce teu afago...

15



Quando os sonhos se desfazem
A dor torna-se imensa,
Não há alento...

As palavras ditas
São guardadas,
Os carinhos trocados
Jamais esquecidos ...

Os olhares mais ternos
E os sorrisos mais francos
Lembrados por toda a vida

E a ausência deixa um vazio sem fim...

Um homem a menos

Seus ângulos obtusos,
Seu desempenho ineficiente,
Um homem a menos
em cada mulher encontrada,
em cada mulher derrubada,
em cada mulher amada
nos lençóis,
no tapete,
no piso frio,
no feno,
na terra,
na água,
em fogo
em silêncio...




Um homem a mais que amei...

Hiatos Amordaçados


Amordaça teus lábios aos meus,
Traga todas minhas fúrias num beijo,
Terno,
Suave,
Eterno,
Espira minhas vogais
Num hiato louco,
Alucinado,
Amordaçado...

Imagem: Web
Ouvindo: Dream a Little Dream

Sintomas e posologias

Essa saudade de tudo e de nada,
quando me pesa,
vem o verso...

A solidão das horas súbitas
quando me afaga,
tenho poentes...

As dores do mundo
quando me sufocam,
ouço a música...


O amor intransitivo
quando insiste em invadir meu coração,
eu consinto mansamente
pois sem ti não sou nada...

Tempo perdido

Ao sentir que enfim nada valeu
Tenta chorar a canção dos tristes
Entoa teu lamento em acordes sem fim
Tempo perdido em esforço
As entranhas expostas
E a dor que consome
Não permite descanso
Cavalgar lutas incessantes
Tombar sobre lençóis em gozo perdido
Mesmo morrendo de desamor
Preferir ficar só com sua ilusão
do que dar fim à esperança
de amor em sua cama e coração
Tentar esquecer e não saber se vai voltar
E se voltar com que pernas chegar
Tempo de amor perdido
Horas perdidas,
Gemidos silenciados,
Lutas sem gloria
Solidão e vazios...



Música:Esquadros

Contas à pagar