Filme Triste


Estranhar a poesia,
Não traduzir
o que não existe.
Não viver na memória
de dias idos.

Calar a prosa,
Não traduzir
o que não existe.
Não ler
nas entrelinhas
das primeiras páginas
dias que virão.

Renunciar a esse suspiro
que alivia o peito.
Chorar as lágrimas dos erros.

Despedaçar
as flores dos canteiros,
Não sentir
o beijo morno do sol
em seus poentes.
Abrir mão das horas
passadas à limpo
na madrugada em que me atiraste
no canto das impossibilidades.
Riscar do dicionário
a palavra impossivel.
Não respirar os sonhos teus,
Nascer diferente,
Não viver acorrentada
num filme triste.

Um dia, talvez,
voltar a ser inteira.
Trazer no peito
o fulgor de uma lâmina,
Nas veias sangue em pó
E na garganta a palavra
que nunca se profere...

Foto: Katia Chausheva

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