O Último Voo do Flamingo

Talvez porque ande como o leito de um rio, onde o verão castiga e suga para si todo sopro de vida e pensar que ainda é Outono, as águas de março acabaram de fechar o verão.

Que me desculpe Tom Jobim, pois neste caso não acredito em promessas, prefiro a certeza de que os rios talvez não tenham datas certas para secar ou abundar, pulsar ou apenas fluir...

prof
"Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no meu parto não me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas de minha mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo de tempo, falo de água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?"

O Último Voo do Flamingo - Mia Couto

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