Debulhar a Vida





Ao nascer
Perdi o aconchego do útero,
A proteção,
A segurança.

Fiquei por minha conta.

Paradoxalmente,
Ganhei os braços do mundo
Que me encantou,
Assustou,
Por vezes me elevou ou destruiu.

Continuei nessa gangorra de perdas e ganhos,
Perdi a confiança absoluta na inocência da infância,
Da mão forte que amparava e me segurava,
Que me ensinou a andar de bicicleta
Sem rodinhas,
Subir em árvore,
Roubar frutas
No quintal do vizinho.

Perdi a capacidade de
Ousar,
Ser atrevida,
Bater nos meninos
Que ameaçam meu irmão,
De quem sentia uns ciúmes de morte
Porque no meu entender, ele era o alvo de todos os mimos que seriam meus.

Mas eu estava lá pra defendê-lo dos outros
Porque ele era frágil, pequeno...

Adquiri o hábito de criticar o mundo,
De questionar o porquê do que não fazia sentido,
Ganhei uma enorme sensação de inutilidade, de vazio...

Abri portas,
Fechei janelas,
Irremediavelmente deixadas para trás...

Perdi alguns direitos,
Como chorar bem alto, aos gritos mesmo,
Quando algo me era tomado contra a vontade.

Perdi o direito de dizer
Absolutamente tudo que me passava pela cabeça
Sem medo de causar melindres.
Contive o direito de dar risadas escandalosas
Cheguei à fase em que me ensinaram
Que não devemos ser tão sinceros.

E aprendi,
Adolesci,
Ganhei peso e altura,
Seios, pelos e bunda.
Ganhei muitos sonhos.
Sonhei dormindo,
Acordada,
Sonhava o tempo todo.

Ganhei o mundo.
E ele me pareceu inadequado aos sonhos
Que aprendi a sonhar.

De repente
Fruta madura tentei
Tornar-me equilibrada,
Contida e ponderada.

Perdi a espontaneidade.
Passei a utilizar o raciocínio,
A razão acima de tudo.

E desgraçadamente perdi o direito de gargalhar,
De andar descalça,
Tomar banho de chuva,
Lamber os dedos e soltar pum sem querer...

Perdi leveza!

Já não pulava mais no pescoço
De quem amava e tascava-lhe aquele beijo enlouquecido
Onde bem desse na veneta.

Mas apertei as mãos de todos,
Ganhei novos amigos,
Um diploma,
Bom salário,
Reconhecimento,
A chave de casa,
Passagem para o mundo.

Algumas rugas, algumas dores nas costas,
Celulite, estrias,
Ganhei mais peso.
Fiz das rugas as boas lembranças...

Ganhei (pari) filhos,
Ah, filhos...

Regatei a inocência
Ensinei que nada precisava ser perdido
Não me entreguei a todos os danos
Acolhi meus desatinos
Voltei a sonhar,
Por eles e com eles.

O brilho no olhar voltou
O sorriso virou gargalhada
Os ruídos voltaram para abafar meus silêncios.

O sol brilha em alguns dias
Felizmente chove de vez em quando,
A primavera sempre chega após o inverno,
Que necessita do outono que o antecede...

Resgatei meu crescer
Ao invés de envelhecer simplesmente...

Criei algum juízo,
Mantive meu bom humor e um pouco de ousadia,
Fiquei um pouco doidinha,
Às vezes leve,
Outras tempestade...

Racional sim,
Lutando pelos meus sonhos.
Tento dizer eu te amo,
De forma que aqueles a quem amo, sintam-se amados
Mais do que saibam-se amados.

Eu voltei a voar,
A ir com o vento
Dei asas aos meus sonhos
Pois esses são meus
E ninguém pode me tirá-los

Nenhum comentário: